Setembro 23, 2009

Pina Bausch - A Sagração



A Sagração da Primavera, de Pina Bausch, consegue fazer homem sangrar, de tão potente. Senti a descoberta do corpo, o pavor e a vergonha do tesão, a entrega ao prazer, a morte do pai em projeção, o estranhamento, a fuga da porção animal do homem e a incontestável ação do destino que o leva diretamente a esta porção, por mais que fuja.
O bando que move em sintonia por respirar em sintonia; o grupo que passa a ser uno, mas nunca deixa de ser grupo, perfeito na presença do defeito, humano, vivo, pulsante.
A terra que impregna os poros, que na presença do suor permite o nascimento da flor, que é a própria arte, o que há de belo na vida. A terra que a todos transforma em bichos, que levanta o pó e preenche o pouco espaço que resta entre os corpos. A terra, de onde viemos e para onde vamos.
A peça, que assisti ontem, poucos meses após da morte da maestrina, é asmática. É de arrancar o fôlego na marra, e nos faz nunca mais querer respirar, para que eles continuem respirando, para que o fôlego deles não acabe nunca!
30 anos! Trinta anos depois da criação, e a criatura continua em plena forma. Não me canso de admirar essa capacidade das artes cênicas quando bem executadas. Nada substitui o ‘ao vivo’, não desisto de repetir! Definitivamente! Nada!
A Sagração da Primavera é dessas peças que devem ser revistas de tempos em tempos.
Do fundo de minha alma, espero que essas obras não desfaleçam junto à criadora, que não virem memória ou meras reproduções, mas que permaneçam latentes e embrionárias.
E espero que os ramos deixados por Pina, seus seguidores e herdeiros, transformem com sabedoria esse histórico legado! E que sigam criando seus próprios, com a bela benção dela, ao invés da forma!

Setembro 07, 2009

Sabor de Maboque




Num fim de tarde de um domingo de 2005, eu estava sentado à mesa de jantar na casa de Dulce, que me servia um bolo de chocolate estupendo com calda extra e sorvete de creme, para que discutíssemos sobre os croquis dos figurinos de Jazz Café que minha mãe havia desenhado e que seriam (e foram) executados por ela para a estréia da peça no fim daquele ano. Gabi, sua filha, estava junto, e sem poder me lembrar como, dentre assuntos culinários e modistas, Dulce começou a nos contar sua história de Angola. Eu já havia escutado aquela trajetória em casa, contada por meus pais, mas foi a primeira vez que ouvi da boca dela. Não lembro quanto tempo o relato durou, mas pareceu uma eternidade contida em um segundo. Eu e Gabi (que parecia saber de cor as palavras, mas as ouvia como se pela primeira vez) permanecemos em silêncio absoluto. As imagens me vinham com uma riqueza de detalhes impressionante e eu só pensava, descontroladamente, nas cenas do filme que eu dirigiria se aquela história fosse minha. Findada a narrativa, só o que pude dizer foi:
- Dulce, você nunca pensou em escrever um livro? Nem que seja só para você mesma, para exorcizar esses fantasmas...
Gabi cortou e endossou energicamente minha fala, dizendo que ela e toda a família não se cansavam de dizer isso à mãe, que me respondeu:
- Ainda é difícil. Quem sabe um dia...
Acabo de ler Sabor de Maboque, que chegou há poucos dias nas livrarias. Li de uma vez, numa gula ansiosa e curiosa pelo texto que há tanto tempo estava por vir. Comer rápido dificulta a digestão, mas já posso expressar um pouco dos efeitos do fruto em minha pessoa.
Tentei ler com um distanciamento de quem não conhece a história ou as pessoas envolvidas. Mas neste caso, trata-se de parte familiar. Nem os heterônimos serviram a este distanciamento. Assim, só posso escrever de maneira envolta aos fatos, sentindo-os impregnados, de certa forma, em meus genes. Impossível, portanto, a imparcialidade.
A riqueza dos detalhes é ainda maior no livro, e fascina, fazendo com que mergulhemos de olhos abertos naquela Angola de tantos e todos, jogando ao ar, nem que de modo instantâneo, as pernas de nossos cotidianos.
O drama épico e verídico, apesar das feridas de guerra e das lágrimas, é sublimado em uma série de declarações de amor. Às culturas, às pátrias, à família e aos amigos, ao próprio amor e à própria vida.
O tom jornalístico percebido no início me deixou apreensivo. Temi, por alguns instantes, que a emoção transmitida pela voz da autora e por seus olhos ao narrar a história ao vivo não se fizesse presente na obra. Pensei: não acredito que ela vai se afastar de si mesma para poder se revelar. Perguntei em silêncio: Dulce, onde está a alma. E a poesia? Pedi: por favor, não ponha os fatos na frente da mulher! Mas bastaram algumas páginas para perceber que estava tudo lá. A carga emotiva dos relatos segue uma curva crescente e lógica ao longo do livro, e nos arrasta junto em passagens poeticamente incríveis.
Assim, como se estivéssemos violando a privacidade de um diário de adolescente, em um ritmo narrativo fiel ao ritmo associativo e à cronologia da memória, somos convidados a provar um pouco do sabor de uma experiência vívida, forte e transformadora, que por anos permaneceu encasulada, esperando apenas seu próprio amadurecimento para que pudesse sair gritada e alada pelo mundo. Mais uma prova de que a dor, hora ou outra, se transforma em poesia, e neste caso, em uma história de amor, ou de amores.
Maboque, para mim, ainda tem o sabor daquele bolo de chocolate. Mas depois da leitura, fiquei com água na boca para provar mais deste fruto. Quero ver o pôr do sol africano, quero comer maboque e todos aqueles pratos tão minuciosamente descritos, quero sentir os cheiros agridoces e conversar com as árvores sobre minhas escolhas e sobre a impossibilidade de controle absoluto do destino.
À autora que, orgulhosamente conto por aí, me carregou no colo, meus mais carinhosos parabéns e obrigado pela catarse.

Acessem: http://www.sabordemaboque.blogspot.com/

Julho 30, 2009

A Alma Imoral

Somente um lembrete: A Alma Imoral continua em cartaz! E continua incrível, quentinha, saida do forno! Uma aula, um respiro, um tempo e a tempo!
Se alguém ainda não viu, crie vergonha nesta cara e vá logo!
Abs e Apls

Vau da Sarapalha

Eu não ia escrever sobre este espetáculo porque achei que seria muito sádico! Porque restam apenas três sessões, e quem não lesse isso a tempo ficaria com uma terrível sensação de ter perdido um bilhete premiado. Mas não pude me conter, e tenho certeza que vão haver muitas outras oportunidades para experimentarmos esse evento teatral! E essa certeza está calcada em um único fato: o Grupo Piollin de Teatro faz este espetáculo há dezessete anos! Sim, 17! Há de continuar!

No programa desta temporada, eles desabafam sobre a dificuldade que existe em manter um espetáculo que já está envelhecido - tanto materialmente, quanto humanamente, já que o próprio elenco permanece intacto - fresco! Sabemos que isso é intrínseco das artes cênicas em geral! A velha questão de como repetir tudo diariamente, sem perder a qualidade, o caráter novidadeiro, a fagulha, a chama, o vigor.

A resposta empírica está cada vez mais clara: a força motivadora deve ser mantida. As motivações podem mudar de figura, de nome, o que naturalmente ocorre com o passar dos dias de uma temporada – o que dizer com o passar de dezessete anos – mas não podem deixar de existir. Suas fontes podem variar, seus fluxos, sua qualidade, mas não sua presença.

E a resposta técnica, pelo menos a do pessoal do Piollin, foi por eles respondida, e muito bem sucedida. Pequenas provocações aos atores, pequenas mudanças de pontos de vista, pequenas novas marcações, pequenos ajustes que começaram com uma releitura óbvia do texto e que conseguem grande revitalização de uma peça! Infelizmente, não vi antes e não posso comparar. Mas quem viu, aposto, não perceberá nenhuma mudança e apenas constatará a manutenção do pulso vital do espetáculo. Notará, talvez, o amadurecimento do projeto, o envelhecimento físico dos atores, mas certamente se surpreenderá com a jovialidade das almas dos intérpretes em seus papéis.

Em relação ao conteúdo, trata-se da adaptação de um conto homônimo do Guimarães Rosa. Muitas vezes, ao darmos corpo a uma obra literária, corremos o risco de a aprisionarmos nos olhos de quem a assiste. Neste caso, não. A direção e o trabalho dos atores é tão genial, que a representação expande ainda mais nossa imaginação pré-formatada pela leitura do texto. Nos leva mais longe pelo rio em chamas, pelos artifícios em fogos, pela humanização do cão perdigueiro, pelo carisma da preta véia, pela musicalidade do capeta e pela narrativa intuitiva dos dois primos.

O olhar dado ao conto é tão singelo que consegue sublimar a própria poesia contida na escrita de Rosa. É milimetrada, é limpa, é doce, tem cheiro de arruda contra todo e qualquer mal-olhado, é afetuosa; a montagem é um abraço sutil em seu público. É amor puro, bruto, verdadeiro e não lapidado. É vital! É imperdível!!

Vau da Sarapalha, do grupo Piollin! Dá um google e saia à caça de novas temporadas, ou de um ingresso para as últimas três sessões desta, que está lá na Funarte/SP! Bom espetáculo!
Abraços e aplausos!

Para quem quer conhecer a história, narração de João Roncatto abaixo:

Julho 27, 2009

Teatro em São Paulo - onde anda você? Eu - onde andava?

Faz tempo que não uploudo postagem nova por aqui! Esta, portanto, vai como análise dos porquês desse triste fato.

Em primeiro lugar, desde a última postagem, estive submerso em processos de ensaios e de uma temporada de dois meses do Désir, espetáculo de minha autoria, direção, produção, no qual também atuo, ou seja, seria impossível me disponibilizar a esses textos em período ardido como esse. Mas já passou. A temporada foi uma delícia, apesar de enorme dificuldade em levar o público ao VIGA Espaço Cênico – um espaço super digno, tanto para atores quanto para público, de facílimo acesso, existente há cinco anos na cidade e ainda muito pouco conhecido – até mesmo pela própria classe artística – simplesmente pelo fato de pouco se divulgar. Um comodismo! Uma pena!

Em segundo lugar: neste período de ausência, além da realização do espetáculo, estive muito envolvido com questões pertinentes à arte do ator propriamente dita, ou seja, aos processos de preparação, treinamento e formação de atores. Assim, estava imerso em vivências, textos e aulas – ora ensinando, ora aprendendo – e todo o tempo que tive disponível foi usado para análises e escritas sobre esse assunto, notas estas que servem para minha tese de trabalho e de vida, e quem sabe de futura pós-graduação, na qual brinco e ziguezagueio entre as ramificações psíquicas e artísticas de minha formação. Esses textos publico um dia, ou aqui, ou em outro blog mais específico, pode ser?

Em terceiro lugar: estou lendo demais!! Simplesmente pelo fato de meus próximos projetos de dramaturgia envolverem autores como Tchekhov e Shakespeare. Acho que os nomes já se auto-explicam! Então, me desculpem, ou leio, ou escrevo. E se for escrever, no auge do turbilhão criativo em que me encontro (leiam o texto “Est Á” no PorTudoQueSinto), provavelmente será sobre esses caras, ou sobre nós, cidadãos comuns, mas inspirado por eles. E esses textos ainda não poderei publicar, porque se todos os meus deuses quiserem, eles irão a palco antes de virem para cá.
Ah, e tem a Ópera do Malandro, que vou dirigir em um curso/montagem em Campinas, no segundo semestre. Mais essa!

E, finalmente, em quarto e principal lugar, motivo do título da postagem: faz muito tempo que não vejo um fenômeno na cena teatral paulistana! E isso muito me preocupa. Os poucos fenômenos que estão em cartaz, e que estão na boca do povo ou da mídia, já vi, faz tempo, nas temporadas de estréia, anos, meses atrás.
OK, confesso-me altamente culpado. Tenho ido pouco ao teatro! MAS, tenho ido! E infelizmente, tenho escolhido as coisas erradas. Pelo menos erradas para mim, no atual momento de minha trajetória vital.
Muito papo cabeça de ator para ator; muito teatrão morto e passado; muita mentirinha, sabe? Muita falta de motivos grandiosos – lembrando que o grandioso pode estar na simplicidade, o importante é que esteja em algum lugar; muito ponto comum, muitas variações sobre temas cansados... Enfim, nada que justificasse uma bela sentada na cadeira de madrugada para o compartilhamento da experiência artística. E nessas estações, o que acontece? O cinema me rouba, bonito, por completo! Os donos das locadoras saem ganhando! As exposições também. A música também! Mas também, daquele jeito viu! Coisas ótimas, boas, mas ainda vencíveis pela preguiça da escrita.

Então, só para citar: acabei de ver O Casamento de Rachel. Devia ter visto no cinema! INCRÍVEL! IMPERDÍVEL! Aluguem! Depois escrevo só sobre ele. Prometo!

Ouvi também pela primeira vez o quinteto CAFÉ TANGO, em apresentação no SESC Vila Mariana. Procurem por eles na net! Quem gosta de tango, mais especificamente Piazolla, não pode deixar de ouvir os caras! Como diz uma amiga que estava comigo: brasileiro é bicho brabo, consegue tocar qualquer coisa! E não só tocar: até compor tango argentino os caras compõem! Agora imaginem argentino compondo um samba! Há-há! Faz-me rir!

E prometo também outra coisa: tenho uma lista gigante de peças para ver! Algo magnânimo irá surgir! Bacco vai me ajudar! Se vai!

PS.: Lembrei de um quinto motivo – o twitter: www.twitter.com/teatro_sp
Um amigo webdesigner (o mesmo que fez meu site – www.eduardodesanthiago.com.br) fez pra mim. Lá cito dicas e frases-comentários sobre a cena de Sampa! Follow us!

PSS.: Ah, lembrei de um sexto: ando procurando emprego. Basta?

Até já! Serei mais assíduo em meu próprio blog, que está bem pobrinho! Agora que acabo de ficar mais velho, serei mais responsável...

Abraços e aplausos!



Abril 05, 2009

Festival de Curitiba

É exatamente curadoria que falta no Festival de Curitiba. Não para diminuir o número de espetáculos. Acho excelente a oportunidade de vitrine que o festival dá a grupos de teatro de todo o Brasil, sejam amadores ou profissionais, sérios ou displicentes. Acho, na maioria das vezes, muito bom assistir a coisas ruins. É também um aprendizado. O que realmente falta é uma melhor classificação dos espetáculos. Da mesma maneira como são separados os espetáculos adultos dos infantis, deveríamos saber um pouco mais dos currículos e das propostas de cada peça e de cada grupo em cartaz. As sinopses deveriam ser revisadas, analisadas e, se necessário, refeitas pelos curadores. Assim, nos sentiríamos menos enganados.
Além disso, as alterações de programação, esgotamento de ingressos e afins deveriam ser melhor divulgados, para que perdêssemos menos tempo. E um sistema de transporte rotativo pelos teatros da cidade também não seria má idéia.

Enfim, foram vinte e nove peças. Sim, 29. Em 9 dias. Seriam trinta, se não fosse Mentira. Mentira seria minha 30ª peça, mas quando cheguei no teatro, poucas horas antes do meu vôo de volta, era tudo mentira. O espetáculo não estava em cartaz. Pelo menos não naquele teatro. E não havia avisos. Enfim, Mentira por mentira, se era essa a proposta do espetáculo, nota 10!
Das 29 peças assistidas, deixei a platéia de apenas uma. Não faço isso regularmente, aliás foram poucas as vezes na vida. Mas no festival, com a quantidade de coisas em cartaz num mesmo horário, a sensação de perda de tempo é muito maior. E a revolta também. Sendo assim, me “revoltei” apenas uma vez. Mentira. Houve algumas outras, mas não fortes o suficiente para me tirar da sala. Quase fortes. Estou me lembrando melhor – houve outras que, não fosse a disposição constrangedora da platéia, ou o número constrangedor de pessoas assistindo, teriam sido também abandonadas. Mas sobrevivi a elas.

No meu ranking pessoal, das 29 peças assistidas, 20 valeram! Não foi tão mau assim. Listo abaixo esses vinte espetáculos. Prefiro não dizer se estão em ordem crescente, decrescente, cronológica, ou em qualquer ordem. São vinte espetáculos dignos de estarem sobre um palco, por motivos diversos e particulares a cada um deles, e dignos de receberem aplausos. Alguns em pé, outros não. Alguns acompanhados de gritos, outros não. Alguns imperdíveis, outros não.

XVIII Festival de Curitiba

RAINHA[S]
INVEJA DOS ANJOS
DOIDO
MEMÓRIAS AFETIVAS DE UM AMOR ESQUECIDO
ÚLTIMAS NOTÍCIAS DE UMA HISTÓRIA SÓ
AMÊSA
SIN SANGRE
DIGA AONDE DÓI
COMPLEXO SISTEMA DE ENFRAQUECIMENTO DA SENSIBILIDADE
ASCENÇÃO E QUEDA DE MAHAGONNY
POR UM FIO
O BEIJO
WERTHER
MEDIDA POR MEDIDA
O BURACO
A MEMÓRIA DOS SERES INANIMADOS
O LUSTRE
FOI COMO SE FOSSE
OCEANO
ÓQUEI


Aos poucos, conforme forem voltando à minha mente, organicamente, vou escrevendo em detalhes sobre elas.

O importante foi mesmo a constatação: como é difícil fazer teatro!

Fui a Curitiba em busca de descobertas, de coisas novas, de um teatro fresco sem frescuras, respirado, que dialogue com a atualidade e com o público de hoje, que se integre a outras formas de arte, que amplie o próprio conceito de arte, que fale a língua das pessoas contemporâneas e que supra as demandas e necessidades dessas pessoas. Se dissesse que não encontrei, estaria mentindo. Mas como foi raro. Como foi difícil!

O que mais vemos são, ainda, espetáculos que se espelham em conceitos, estéticas e linguagens antigas; baseados em teorias e técnicas consagradas, mas que pertencem a outros tempos – e que surgiram pelas necessidades do Homem de outros de tempos. Difícil encontrar trabalhos que lidem com as mudanças. O teatro ainda se prende muito facilmente a modelos. E modelos são os principais inimigos da verdade cênica.
As temáticas, no geral, acompanham a atualidade. Afinal, muitos temas são e sempre serão universais. E fala-se muito de solidão, de hiperconectividade e falta de contato, de metrópoles e megalópoles, de pessoas sem rumo... O problema é a forma como esses assuntos são abordados.
Enfim... Não posso me delongar mais aqui. Deixo as análises profundas para minhas teses.

Que venha o novo! E que eu consiga praticá-lo com a mesma clareza que ele se apresenta a mim, em minha cabeça.





Abril 04, 2009

Não sou feliz mas tenho marido

Já tinha visto no Rio e vi ontem novamente, na reestréia da temporada paulistana que está no Procópio Ferreira, de sexta a domingo.
Em cena, Zezé Polessa. Sozinha? Nunca! Sempre acompanhada por diversos personagens que rodeiam seu casamento, e que ela nos obriga a enxergar perfeitamente através de seus olhos, de suas caricaturas e de sua representação sempre impecável.
Zezé, há três anos na carreira desta peça, consegue manter o frescor e o entusiasmo de uma estréia com sua personagem Viviana, rindo livremente de si mesma, se ouvindo como se da primeira vez, dançando e festejando seu espetáculo cheia de ar, leve, leve... Uma cena deliciosa, que nos joga no palco junto dela, que vai nos aquecendo com gentileza e formatando nossos sorrisos, risos, risadas e gargalhadas num crescendo orgânico e imperdível!
Segurar um monólogo de uma hora e meia não é tarefa para qualquer ator. Com tempo de duração superior à média dos monólogos que temos em cartaz, o espetáculo passa num suspiro, renovando a cada vírgula nosso interesse.
Em tempos de crise, surgem cada vez mais espetáculos de elencos reduzidos, como solos e duos. O maior mérito da atriz é manter a fluidez de sua cena, superando questões egóicas e elevando ao máximo o nível artístico de sua peça. Não vemos a estrela, vemos a pessoa se divertindo com sua escolha de obra, sendo exatamente este o fator que acaba dignificando o próprio estrelato de Zezé, a cada sessão.
O tema, que poderia facilmente cair em clichês sobre os percalços do casamento, envolve a todos, já-casados, nunca-casados, ex-casados e afins. E vai além. Vai pela complexidade de um relacionamento, pelo desafio estabelecido em qualquer encontro entre duas pessoas, frações de tempo em que deixamos de ser individuais e passamos a ser coletivos.
Uma comédia revigorante, digna de aplausos e indicações.
Aos que estiverem felizes, uma bela recarga de alegria.
Aos que estiverem infelizes, a premissa “não sou feliz, mas ainda sei rir” vale a ida.

Fevereiro 15, 2009

Agir ou não agir. É esta a questão.

Só fui ver agora. Deixei passar o corre-corre, o frisson e essas coisas. E é, realmente, do caralho. Não há expressão melhor para essa peça de menino como ‘do caralho’. É peça de menino mesmo, totalmente Yang, do cenário aos figurinos, da iluminação às interpretações e relações. É filosofia bruta, sem melação de cueca, sem dengo, sem essas coisas de cancerianos.
É Shakespeare visto em vitrine de Brecht. Mas isso não importa. Isso é blá-blá-blá intelectualóide. O que importa é que, pela primeira vez, ouvi Hamlet como sempre quis. A tradução é incrível, e respeitosa com ambos os tempos – o dele, de Bill, e o nosso, dos humanos. Aderbal é bom demais, sô! – como diria um mineiro amigo meu que quando volta de Minas volta cheio de ‘sô’. Aderbal é foda! E o Wagner Moura... É um animal, ora racional, ora irracional. Wagner Moura é um puta ator! E ele não é bom porque a BRAVO! disse, ou porque o Brasil repete “pede pra sair” e baba ovo, não! Ele é bom porque é. Porque tem completo domínio do que faz fora de controle. É um maestro com as palavras e com o corpo, jogando fora o que não quer e valorizando o que quer. E é movido por paixão, por realmente querer dizer aquilo naquele momento. E faz isso sem frescura, sem pompa, sem caras e bocas, sem construções. Ele age, e pronto. Por isso é ator. E os intelectualóides não tem nem tempo de perceber quando ele muda de estéticas, nem que ele faz uma mistureba enorme com as escolas e estilos interpretativos e põe tudo no mesmo caldeirão de bruxa, que ele nos joga lá longe e depois nos traz ao pé do ouvido, morre e renasce o tempo todo, e depois sacode, e assusta, e pega no colo, e joga no solo e nos faz, a todos, mulheres, receptivos, recebedores! Foda-se como ele faz. Ele faz. Agir ou não agir, esta é a questão. Não é?
O resto do elenco, com exceção do Tonico Pereira que também dá seu show, vai variando. Coisas boas e coisas nem tanto... Mas aqui só escrevo sobre o que mexe comigo, então, ‘xá pra lá’.
Palmas bravas ao Hamlet de Wagner e de Aderbal, e agora meu também. Valeu pelo presente, rapaziada! É nóis, Bill!

Outubro 13, 2008

Sensibilidade germânica

Como pode um filme alemão ser tão sensível? Como pode um filme tão sensível ser tão alemão?

A Vida dos Outros é imperdível, desses que te prendem o ar, que emocionam sem derramar lágrimas, que transformam cérebro em coração e coração em cérebro, que tiram sorriso nas tragédias e espanto nas comédias.

Com um título desses, não teria como não ser sucesso. E se o espectador conseguir trazer aquele contexto para seus próprios, ficará um bom tempo com ele na cabeça... ou no peito? Enfim, no corpo. No meu, está ainda.

Tríade Familiar

Por alguma conjunção astral, por projeção psíquica ou por pura coincidência, nos últimos dias assisti a três filmes “Família” no conforto de meu lar. “Família” não por serem dignos de sessão da tarde, leves e puramente entretivos – aliás, muito pelo contrário. “Família” por abordarem com realismo cruel e identificativo este universo microcósmico do órgão lar-doce-lar.
As abordagens a este tema não fogem muito de alguns padrões, mas quando bem feitas, pela própria universalidade e por ser tema inesgotável, fascinam a quem assiste.
O primeiro deles foi o Sonata de Outono, do Bergman, filme que vivo revendo, principalmente quando estou afim de me lambuzar de boas interpretações. Como um bom Bergman, o filme aborda a relação mãe-filha de forma psicologicamente explícita, sendo praticamente uma sessão intensiva de análise. Peca exatamente por ser super-didático – em alguns trechos, temos a sensação de estarmos tendo uma aula de psicanálise – quando poderia ser mais naturalmente implícito. De qualquer maneira, o mergulho das duas atrizes em suas análises naquela madrugada, seus olhares e a maneira como exprimem todos os traumas e complexos da relação, prescindiriam quaisquer textos ou teorias. E é fascinante o olhar determinista do diretor sobre as vidas daquelas pessoas, que apesar de toda a lavagem de roupa suja em rios de lágrimas e em mares de sinceridade, em nada se alteram ou se modificam no dia seguinte. Ou seja, é extremamente pessimista a idéia de que um complexo, uma vez incrustado na alma da personalidade, atuará neste lugar para sempre, independente da consciência ou inconsciência de sua existência.
De qualquer forma, o filme é genial porque poderia ser reduzido somente a uma cena, a do Prelúdio de Chopin ao piano. Depois desta cena, tudo o que vem é pura tradução em palavras dos olhares apresentados pelas atrizes, mera informação de dados e contextos, só para que tenhamos certeza de que o que vimos ao piano, é realmente o que achamos que fosse.
O segundo foi A Casa de Alice, de Chico Teixeira, que se encerra como simples retrato da família de classe média, e que é genial por ser fenomenologia pura, por mostrar, e nunca explicar, toda a complexidade por trás do corriqueiro e da aparente simplicidade do órgão familiar. O filme traz o mesmo teor de bagagem psicológica de um Bergman, mas todo o tempo, nas entrelinhas. Alguém pouco sensível pode passar batido pela fita, pode sair da sessão xingando o cineasta por fazer um filme tão cotidiano, tão sem sal, tão “classe-média”. Agora, alguém com um olhar tão sensível quanto o do diretor, sairá maravilhado pelos movimentos emocionais pelos quais passam cada um dos personagens, percebendo toda a complicação que se instaura pelo simples encontro de dois seres humanos, constituindo uma relação interpessoal. A personagem de Teixeira, diferentemente das duas personagens de Bergman, já dá um passo à frente em busca de sua individuação, de sua felicidade, mas parece tão presa quanto as outras nas tramas de sua vida, que não permite que ela saia do lugar.
O terceiro deles, The Savages, apesar da boa dupla de atores, fica naquele limbo hollywoodiano, mostrando-se um filme de grande potencial, mas um pouco mal resolvido por fórmulas cinematográficas. De qualquer maneira, é interessante o rito de passagem que o casal de irmãos atravessa quando finalmente percebem-se donos de suas vidas, após a morte do pai. Como que uma conclusão do processo pensado em Sonata de Outono, onde as personagens mantêm-se no nível teórico de resoluções de suas vidas, e iniciado em A Casa de Alice, que começa a exprimir uma força de mudança não suficientemente forte. O mais interessante de tudo, é ter a ação familiar como plano de fundo e como origem de todas as dificuldades e facilidades com que cada um dos personagens dos três filmes lida com sua linha de vida. É impossível assistir, e não se identificar. Penso se, em tempos pré-psicológicos, estas histórias seriam contadas desta mesma maneira; se não, de que maneira, então?





Outubro 07, 2008

Onde andará Neena?

Neena Freelon é uma jazz woman, preta, linda, que já ganhou alguns Grammys, que faz uma aparição aqui e acolá em filmes hollywoodianos, que canta como ela mesma e de quem há tempos não ouço falar.
A primeira vez que tive o prazer de ouvi-la foi em um show tête-à-tête no Blue Note, em Nova Iorque, quando virei fã de carteirinha e saí comprando todos os CDs, que não eram muitos na época. Voltei ao Brasil, quase furei os discos e soube que ela viria para cá, já não pela primeira vez.
Foi quando a vi pela segunda e última vez, mais tête-à-tête ainda, no antigo Mistura Fina do Rio. Lembro que durante o show, entre um elogio à música brasileira e outro, ela disse que o que mais a atraía em fazer shows era ter a possibilidade de usar as notas musicais que pairam no ar das casas de jazz, notas abandonadas lá por outros artistas. Pediu que fechássemos os olhos, pois ela iria usar aquelas notas também de olhos fechados, e achava que isso seria falta de educação para conosco, seu público, que a essa altura já deixava a baba pingar diretamente nos copos de uísque.
Lembro de ter falado com ela após o show. Lembro da simpatia que nem sempre acompanha a genialidade. Simpatia tamanha, que dei o nome dela a uma personagem de um musical que escrevi, o Jazz Café. Uma homenagem aos momentos de prazer que ela me proporcionou, uma vez que, para mim, fazer isso é o mesmo que dar o nome de alguém a um filho meu.
Depois o tempo passou, ela lançou mais alguns discos, ganhou mais alguns Grammys, e sumiu. Não sei se do mundo, mas de mim. E hoje voltou com força total, escalando a pilha de CDs com o furor de ter sido deixada de lado por tanto tempo, e, neste exato momento de escrita, preenche minha casa com notas que ficarão aqui abandonadas. E então me pergunto: onde andará Neena?
Poderia ter dado um google antes de escrever. Poderia ter escrito um texto mais atualizado, mas isso acabaria como a graça do título. Farei isso agora. Um brinde à boa música!

Setembro 25, 2008

E Houve!

Daniel Day-Lewis conseguiu em There Will Be Blood, o feito tão almejado pela classe hollywoodiana, e, por que não falar, por qualquer ator. Entrar para o hall das cenas clássicas da história do cinema. Talvez não ainda, mas assim que o filme deixar de ser tão recente.
O filme tem aquela temática adorada por norte-americanos desde a corrida do ouro, mas se diferencia por abordar outras questões pertinentes da atualidade, com uma capacidade de expansão simbólica incrível. E o melhor de tudo é que leva qualquer conflito externo para uma visão do interior do seres humanos, todos eles centrados no personagem de Lewis.
O filme não me emocionou, já que isso vai exatamente contra à aridez do protagonista que nos carrega nas costas, e me faz tirar o chapéu diversas vezes pela presença e pelo olhar do ator. Um personagem que lida com a solidão do início ao fim da vida. Que constrói sozinho sua fortuna, que quando cai não tem mão que o ajude a subir, mas que está disponível a ajudar qualquer pessoa, desde que lhe reconheça e que seja reconhecida por ele como um dos “seus”. Mantém ao seu lado apenas um indivíduo, seu filho, que não sendo sangue de seu sangue não preenche plenamente a vaga de extensor. Assim, lida com a culpa de não conseguir amar o próximo, tornando-se um homem extremamente anti-social em todos os significados que o termo possa ter. Em contraponto, há a figura de um jovem pastor, também de certa forma anti-social e tão ganancioso quanto o protagonista, mas que ganha dinheiro sem esforço através do teatro do amor ao outro, que são as assembléias em sua igreja. O pastor é dotado da habilidade que o protagonista tanto almeja, a falsidade. Através da falsidade e da mentira, cresce na vida, fato só desempenhado pelo personagem de Lewis através do próprio suor, e da maneira mais solitária possível.
A fita trouxe à tona minhas verdades e sentimentos mais sombrios e renegados, o egoísmo mais puro que carrego comigo, a revolta e a vontade de justiça, a impaciência para com seres eletivamente burros, e lavou minha alma na tão esperada cena final. Assim, recheado de seqüências históricas e interpretativamente riquíssimas, nem um pouco cartesianas e elevadas ao mais alto grau da complexidade humana, vale pela verdade e pela crueldade expressas com toda a sujeira que o filme pede, sem medo de desagradar os olhos mais pudicos, já que o título avisa desde o início o que irá mostrar a quem levá-lo para casa.

Setembro 24, 2008

O Caminho para Meca

Um texto de um tempo atrás, mas que cabe bem aqui!

Há muito tempo eu não ia ao teatro e, ao final do espetáculo, sentia algo que não me deixava ir embora. Como é raro, e bom, sentir a verdadeira catarse. Há pouco tempo, senti. Tudo isso. E revivi minha escolha por fazer teatro.
Foi quando fui assistir ao “O Caminho Para Meca”, do dramaturgo sul-africano Athol Fugard, direção de Yara de Novaes, que tinha no papel de Helen Martins a incrível e apaixonante Cleyde Yáconis.
O espetáculo era brilhante e iluminado, em todos os sentidos. O texto é rico, a encenação foi do tamanho exato, nem maior, nem menor do que a história demanda. Mas o mais extraordinário foi poder compartilhar com a grande atriz, sua alegria por estar ali, sob nossos olhos. E, principalmente, sua inteireza. Não poderia existir união mais perfeita entre texto e atriz, naquele momento. Cleyde Yáconis, certamente, vem construindo sua Meca ao longo destes anos e, para nosso deleite, ainda não terminou.
Aquela história me preencheu de amor e de forças para persistir em meu caminho. E focou novamente meu olhar que, por conta da contemporaneidade em que vivemos, perde muitas vezes seu objetivo primordial. Me centrou. Me enriqueceu. Me trouxe de volta a mim mesmo.
E tudo o que já escrevi sobre a verdade, tudo o que já li sobre a individuação e tudo o que já filosofei sobre a plenitude fizeram-se concretos em meu espírito naquela noite.
Entrei no teatro com fome, e saí apaixonado.
Ver de perto as lágrimas no rosto da grande atriz ao agradecer pelos aplausos de seu público, foi sublime. E o público era pequeno. O teatro, quase vazio, numa sexta-feira paulistana de muito frio e muito trânsito. E é somente desta forma que se reconhece a verdade em ser uma “grande diva do teatro”. Aquilo, sim, foi teatro.
Sinto-me forte, ao lembrar, apesar de ainda caminhar em terreno escorregadiço, e levar meus tombos vez ou outra. Sinto-me, ao menos, um pouco mais capaz de discernir sobre meu destino, sobre meu papel, sobre a minha Meca, que aos poucos construo. Sinto-me calmo. Ela se fará aos poucos. E cada caco será o todo em si. Sinto-me crente, em mim mesmo, nos personagens com os quais brinco vida afora. Sinto-me, hoje. E espero que ainda, amanhã.

Não sei se a montagem já encerrou os trabalhos, ou se ainda roda por aí. Mas vale procurar pela Meca de Cleyde e Yara, esteja ela onde estiver.

Ah, Dona Inah

O samba sempre fez parte da minha vida, de uma forma ou de outra, mas nunca me tocou tanto quanto nos últimos tempos.

Os CDs recentemente lançados por algumas das mais prestigiadas cantoras do país, com repertórios compostos somente por sambas, dos mais ricos e variados, foram chamando minha atenção ao que há de mais puro e genuíno em nosso samba de morro.

O lançamento do documentário Mistérios do Samba, de Lula Buarque de Holanda, tirou meus calcanhares do chão na platéia do cinema e me deu vontade de sair acompanhando a Velha Guarda da Portela na palma da mão, no meio do filme.

Tradições, de uma maneira geral, me abalam em demasia. E traçar seus paralelos fica ainda mais interessante. Incrível como uma roda de samba, no morro, faz lembrar muito uma juerga flamenca andaluz, por exemplo.

Ontem, para meu deleite, fui ao encontro de Dona Inah, que cantou para os poucos e bons (que para o tamanho do bar já eram muitos) lá no Ó do Borogodó.

Dona Inah tem 69 anos, e gravou agora seu primeiro CD, Divino Samba Meu, com o que há de mais verdadeiro do nosso samba.

Dona Inah, senhora mulata de pequeníssimo porte, sorridente no social e séria em seu ofício de cantora, cantava no rádio nos anos 50, parou de cantar nos anos 70, foi babá, doméstica, cozinheira, foi voltando de mansinho para as rodas de samba da cidade, foi adotando aos poucos uma série de netos que beijam sua mão quando chegam para ouvi-la cantar, e agora, merecidamente muito chic, gravou seu primeiro CD.

Dona Inah é uma simpatia. Foi acompanhada por um quarteto de chorinho, o Choro Rasgado, que dá seu belo show à parte, com arranjos mega elaborados na sincronicidade.

Dona Inah não precisa fazer nada, só olhar pra gente e cantar, para lustrar nossos olhos com lágrimas de beleza, de sutileza, enquanto nossos corpos não se contém na levada do seu samba, samba de sambista, samba de sambista malandrinha, samba de sambista malandrinha do morro, samba de sambista malandrinha do morro da cidade onde o morro fica fora do morro, mas não deixa o samba morrer. Porque "o samba não vem do morro nem da cidade ... O samba nasce do coração".

Definitivamente, como ela mesma canta, "ninguém aprende samba no colégio".

Não há como ouvir Dona Inah cantar no bar e ir embora sem querer se despedir.

Dona Inah, por favor, me adote também como seu neto no samba!

Setembro 22, 2008

Gota D´Água e a Energia X

Fui assistir a uma montagem do Gota D´Água, de Chico Buarque, em cartaz no Centro Cultural Veneza, no Rio de Janeiro. Não foi a melhor que já vi, mas valeu. Valeu pelo arrepio, que me erigiu os cabelos e os pêlos do corpo todo, e durou alguns minutos. Depois, passei o segundo ato todo pensando no tal arrepio. Como somos interessantes, nós, homo sapiens sapiens, que nos conectamos com tudo que está à nossa volta, mesmo sem querer.

Uma vez, saindo de uma sessão do Désir, em São Paulo, um espectador, habitué do local, que já haviam me alertado ser um bêbado e ladrão, veio me cumprimentar e me parabenizar pela peça, dizendo que achava que não iria, mas acabou conseguindo sentir a tal Energia X.

Energia X... Sei...

E sabia mesmo do que ele estava falando. Porque nós sentimos, quando atores ou espectadores, a presença ou ausência da tal Energia X em uma cena - seja de teatro, mais fácil de sentir, já que estamos diretamente mergulhados no campo magnético criado entre palco e platéia, seja de cinema. Sentimos quando somos verdadeiramente tocados, quando dizemos ou agimos verdadeiramente em uma cena, e é esta Energia X que percorre todo nosso corpo e nos faz arrepiar como arrepiei na montagem que fui ver.

Em uma sessão de Os Aldeotas, com Gero Camillo e Caco Ciocler, por exemplo, pude ver o braço do Gero completamente arrepiado enquanto descia pela arena em direção ao palco, para realizar magistralmente a última cena da peça. E era uma das últimas apresentações de não sei quantas temporadas!

Um musical tem a grande vantagem de colocar o texto em canção, o que corta caminho em direção ao ponto G da alma e, quando decide nos atingir, atinge de supetão.

Poderia descrever a cena do arrepio da Gota D´Água, mas vou ajudar os colegas e deixar o suspense no ar, um ar mandinguento que só brasileiro consegue ter. Assistam quando puderem e notem, se tiverem sorte, a Energia X arrepiando por aí.